quarta-feira, 13 de abril de 2011

PERFIL //Ney Matrogrosso

PARA ALÉM DOS PRECONCEITOS:

UM HOMEM TRANSGRESSOR,

QUE OUSOU SONHAR COM A LIBERDADE

A ditadura militar foi palco da história dele. No momento em que o país vivia encoberto por um pano preto, censurado e andando de cabeça baixa – como já dizia Chico Buarque: “(...) A minha gente hoje anda. Falando de lado. E olhando pro chão, viu. Você que inventou esse estado. E inventou de inventar. Toda a escuridão” –, explodia pro mundo, um artista forte, contestador, ousado, de voz rara e apaixonado pela arte.

Vivendo para além, nunca pensou no passado nem no futuro. Transgrediu e desafiou a ditadura, com arma própria: o talento e a voz. Voz que ecoava Brasil a dentro, levando alegria à vida de pessoas comuns, como do senhor Francisco Salgado, que bailava ao som da inclassificável voz de Ney Matogrosso. Artista, famoso, intérprete, cantor. Definam como queiram. Pois, pra mim, ele foi o “nosso Ney”. Não o nosso Rei. Mas o nosso Ney, despido de estrelismo e tão mortal como qualquer outro mortal.

No alto dos 67 anos, despido de máscaras e preconceitos, o jovem Ney mantém a simpatia de uma criança e a maturidade de um senhor. Senhor que já perdeu dezenas de amigos para a morte, já foi brinquedo de crianças, usou drogas, muitas drogas, viveu a filosofia hippie, sonhou com a liberdade, se assumiu gay e soube, e sabe, dizer não. Não às gravadoras, não à Globo, não às drogas, não...

Conhecedor do mundo, Ney poderia ter colocado a gente, jovens aprendizes da arte de entrevistar, no bolso. Mas não, ele nos ajudou a chegar a um diálogo possível. Se num primeiro momento esteve contido. Num segundo, foi dominado por um turbilhão de idéias, sentimentos, emoções, gestos. Permitindo a si mesmo, comover-se com as lembranças que lhe vinham à mente como águas cristalinas, as quais habitam a solidão do homem Ney. O homem com H, que é capaz de se emocionar contemplando o ir e vir de um beija-flor – “Não, não, obrigado”.

Dono de si, Ney vai contando sua vida como quem conversa com novos amigos. Embora se repita em alguns trechos, ele também se reinventa, e faz confidências, deixando no meio do caminho reticências, para nos levar, quem sabe, ao seu íntimo. Ativo, ele gesticula e vive o momento, mas também revive o passado. Olhando para além dos nossos olhos, ele parece tentar adivinhar nossos pensamentos. Parece querer captar nossas sensações naquele instante.

A tarde estava calorenta. Isso podia ser percebido na maneira como Ney movia as mãos, em movimentos que pareciam querer sacar, para fora do corpo, a blusa a incomodá-lo. Mas diante daquele ser, no mínimo exótico, não percebi o calor, nem o barulho, nem tão pouco o tempo. Aliás, o tempo pareceu estar compactuando com aquele momento, porque ele passou preguiçoso e silencioso. Não fosse pelo gravador, ainda de fita, que teimava sinalizar a passagem das horas, eu diria que o tempo pára...

Eu queria apreender aquele momento na memória para sempre. Com tênis allstar verde, camisa gasta, calça jens colada, Ney parecia um de nós. Tentei lhe sugar cada detalhe, cada sinal, cada gesto, cada marca do tempo, que me fez lembrar que o tempo, realmente, não pára. Parecendo captar meus pensamentos, Ney me consola – “O corpo da gente vai envelhecendo, mas a gente é o mesmo. Aquele lá é a mesma pessoa. Só envelhece por fora, dentro você é o mesmo”.

Ney de Souza Pereira conquista com o carisma, com a simpatia, com o bom humor, mas também com o jeito tímido e respeitoso de receber um gemidinho. Despido de parafernálias, o homem Ney abriu a porta da sua vida, acrescentou algo em mim e levou algo em troca. Mais que tudo isso, Ney me sacudiu e me lembrou de sonhar com a liberdade.

* Este perfil foi produzido durante a disciplina Laboratório de impresso, do curso de Comunicação Social da UFC, para compor a entrevista do cantor Ney Matogrosso, concedida à Revista Entrevista n° 21, em 2008.

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